Opinião: Deixa eu sentir

 
Crédito: Daniel Derevecki

*Daniel Medeiros

Em 1979, o último governo militar sanciona a lei da anistia e, com isso, milhares de brasileiros exilados voltam ao Brasil, alguns distantes há mais de uma década, como, por exemplo, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Este último, quando desembarca no aeroporto, é abordado por uma repórter que lhe pergunta: “O que você está sentindo, Betinho?” Ele, sufocado pelo mar de gente, de vozes e de emoções, diz: “Deixa eu sentir primeiro!”.

O século 21 encarnou, entre tantas transformações disruptivas, a era sem sentimentos. Não há mais tempo nem espaço para o sentir. O espaço sumiu, o tempo fragmentou-se. O sentir exige percepção, decantação, nomeação e internalização para tornar-se memória e repertório. Só assim pode ser narrado. Só assim pode ser compreendido e afetar o outro. Walter Benjamin, no texto O narrador, diz sobre os soldados que voltavam da “grande” guerra: No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha; não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável.

Em qualquer roda de conversa, o que se percebe é que não há mais o caldo comum em torno do qual se produz a mágica da conversação. Há falas, sim. E muitas. Mas não são conversas. Observem. O que há é alguém falando e alguém esperando a vez para falar. Não há mais a escuta, o riso solto no trocadilho inteligente, o espanto diante da peripécia da história. Porque nada mais faz sentido, nada mais, ou quase nada, mantém-se, incorpora-se, amplia a presença do meu ser no mundo.

Por isso, apesar de se passar horas diante das telas, no momento em que se fecha o computador ou o celular, é como se despertássemos de um transe. Resta o vazio, um vazio somado a um cansaço, pois que nos entregamos a uma atividade exaustiva, como os soldados nas trincheiras da Primeira Guerra, mas sem resultados duradouros. Assim, não há nada para narrar, nenhuma lição a se tirar, nenhuma dúvida a ser dirimida, nenhuma vontade de passar adiante. Uma narrativa, como disse Benjamin, é como essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaram fechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forças germinativas. Sempre que são recontadas, despertam sentimentos, implicam as pessoas que as ouvem, geram comentários, discussões, preenchem o tempo com vida, e não com indiferença ou distração.

Essa dificuldade de sentir é fonte contemporânea de adoecimento. Sem que haja algo para sentir e pensar, os dias tornam -se iguais e intermináveis. O presente é opressor na sua ausência de horizontes. Escondemo-nos dessa opressão na ilusão do “conteúdo” das redes, que nos cooptam e nos digerem como um papa-moscas. Sobram nossos olhares, que se movem verticalmente enquanto nossos dedos deslizam imagens e sons cacofônicos, capturados em sua vertigem sem fim.

“Deixa eu sentir”. Esse apelo, vindo do passado recente, ganha uma atualização e uma urgência contra o abandono de nosso eu/ipso, isto é, da interpretação que eu faço de mim mesmo através da minha história, das minhas ações e, principalmente, das minhas relações com os outros. Recuperar essa capacidade de narrar a própria existência e suportar as pressões da mesmidade é um dos desafios de nosso tempo. Para que possamos, enfim, sentir.

 

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso Positivo. @profdanielmedeiros


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