Opinião: O futebol, a escola e as cegueiras do conhecimento

Crédito: divulgação

Ivana Muscalu*

Em 2026, quando todos os olhares se voltarem para os gramados da Copa do Mundo de Futebol Masculino, teremos a chance de discutir não apenas futebol, mas também a própria natureza do conhecimento. O futebol feminino, com sua trajetória de proibição e apagamento, pode servir de ponto de partida para uma reflexão mais profunda. Mesmo que ainda não ocupe o espaço dedicado ao masculino, não se trata, aqui, de afirmar que essa modalidade permanece invisível — felizmente, nas últimas décadas, ela vem conquistando o espaço, a visibilidade e o reconhecimento que merece.

Trata-se de compreender como foi possível que, por tanto tempo, algo que existia concretamente simplesmente não figurasse nos registros oficiais, nas estatísticas e na memória coletiva. Esse fenômeno, cujos ecos ainda são perceptíveis quando se examinam comparativamente os números que separam homens e mulheres (patrocínio, audiência, salários), ilustra o que Edgar Morin chamou de “cegueiras do conhecimento”: uma certa tendência do conhecimento humano ao erro e à ilusão, decorrente de nossa percepção limitada, dos paradigmas que adotamos inconscientemente e das influências culturais que moldam aquilo que consideramos “verdadeiro” ou “real” .

Tradicionalmente, a escola se ocupou de transmitir conteúdos sem necessariamente examinar o que é o conhecimento em si, seus limites e sua permanente vulnerabilidade. As cegueiras do conhecimento não são meras falhas pontuais: operamos com erros de percepção (nossos sentidos nos enganam), erros intelectuais (teorias e ideologias que adotamos acriticamente) e, sobretudo, com cegueiras paradigmáticas, ao adotarmos modelos explicativos que, ao mesmo tempo em que revelam certos aspectos da realidade, ocultam outros. No caso do futebol feminino, o paradigma vigente durante décadas dificultou o registro, a valorização e o estudo da história da modalidade e daquelas que a praticavam, selecionando o que “merecia” existir no imaginário social.

É nesse ponto que a escola encontra a história do futebol e, como ela, precisa se transformar para deixar de se comportar como se o conhecimento fosse um dado acabado, um conjunto de verdades a serem depositadas nas mentes dos estudantes. O exemplo histórico das mulheres em campo demonstra o perigo dessa postura: se ensinarmos apenas os fatos consolidados, as estatísticas disponíveis, os registros oficiais, formaremos gerações incapazes de perguntar pelo que ficou de fora, pelo que não foi medido, pelas vozes que não tiveram direito ao arquivo. A escola que se pretende espaço de reflexão epistemológica é aquela que pergunta não apenas "o que sabemos", mas também "como chegamos a saber", "quem definiu o que merece ser ‘sabido’" e "quais cegueiras podem estar operando em nossas próprias certezas".

Às vésperas da Copa, essa discussão ganha contornos nítidos. Acompanhar o torneio com olhar crítico significa perceber, por exemplo, os contrastes entre a cobertura midiática do futebol masculino e do feminino, os diferentes investimentos, as narrativas construídas sobre jogadores e jogadoras. Mas vai além: significa compreender que todo conhecimento – inclusive o científico, inclusive o escolar – está sujeito às mesmas dinâmicas. Há sempre uma parte que escapa, uma realidade que não se deixa capturar pelos instrumentos disponíveis, uma dimensão humana (cultural, afetiva, histórica) que interfere naquilo que consideramos verdadeiro. 

Portanto, se o torneio nos convida a olhar para o futebol, que ele nos convide também a olhar para dentro da escola. Que possamos formar estudantes que não apenas assistam aos jogos, mas que perguntem pela história de quem jogou e não foi visto; que não apenas memorizem datas e fatos, mas que investiguem os processos de construção e apagamento que constituem todo o conhecimento. Que possamos construir, coletivamente, não uma educação que forneça respostas prontas, mas uma que ensine a suspeitar de nossas próprias certezas e a reconhecer que, onde há conhecimento humano, há possibilidade de erro e de ilusão e, portanto, também há espaço permanente para o questionamento e para a reflexão crítica.

*Ivana Muscalu é doutora em História pela USP e coordenadora pedagógica do Colégio Santo Ivo.

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