Bruno Borgonovo*
Por muitos anos, trabalhar com tecnologia parecia um passaporte automático para estabilidade, altos salários e crescimento contínuo. O setor virou símbolo da nova economia e atraiu uma geração inteira de profissionais convencidos de que havia espaço infinito para expansão. Mas a realidade mudou.
Nos últimos dois anos, empresas de tecnologia no mundo inteiro anunciaram ondas sucessivas de demissões. Nomes como Google, Amazon, Meta e Microsoft reduziram equipes, congelaram contratações e revisaram estruturas inteiras. O fenômeno é tão amplo que já começa a afetar cidades inteiras cuja economia dependia da exuberância do setor.
Naturalmente, a primeira reação foi apontar a inteligência artificial como culpada. Afinal, estamos vivendo a maior revolução tecnológica desde a internet comercial. Mas será mesmo que a IA já substituiu milhões de trabalhadores? A resposta, pelo menos por enquanto, parece ser: ainda não.
A recente análise da revista The Economist traz uma reflexão importante e bastante lúcida. O problema atual do mercado tech parece menos uma “rebelião das máquinas” e mais uma combinação de excesso de contratações durante a pandemia, juros altos, pressão por rentabilidade e amadurecimento do próprio setor.
Entre 2020 e 2022, as empresas contrataram em ritmo frenético. O mundo digitalizou tudo ao mesmo tempo: trabalho, consumo, educação, entretenimento, atendimento e comunicação. Parecia que o crescimento não teria fim. Muitas empresas expandiram equipes não apenas para atender à demanda real, mas também para agradar investidores e transmitir imagem de expansão acelerada.
Agora veio a conta. O dinheiro ficou mais caro, investidores passaram a cobrar eficiência e as empresas descobriram que estruturas gigantescas não significam necessariamente produtividade proporcional. O mercado entrou numa fase mais racional. E isso tudo costuma gerar cortes.
Do ponto de vista de quem emprega no Brasil, acompanhando o cenário global, há algo ainda mais importante acontecendo: o mercado não está eliminando apenas vagas. Ele está mudando profundamente o perfil de valor do profissional.
A inteligência artificial talvez não esteja acabando com empregos na velocidade que muitos imaginavam. Mas ela certamente está eliminando tarefas. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Funções extremamente operacionais, repetitivas e previsíveis passaram a ser executadas com muito mais rapidez por sistemas inteligentes. Isso não significa que o profissional deixou de ser necessário. Significa que ele deixou de ser suficiente apenas com execução técnica básica.
O mercado começa a premiar outras competências, como pensamento estratégico, repertório, comunicação, capacidade de decisão, visão sistêmica, inteligência emocional, criatividade aplicada e integração entre tecnologia ao negócio.
Em outras palavras: a IA não substitui facilmente profissionais que pensam. Ela substitui mais rapidamente profissionais treinados apenas para repetir. Isso muda radicalmente a lógica da empregabilidade.
No Brasil, essa transformação talvez seja ainda mais sensível porque convivemos com um paradoxo: ao mesmo tempo em que empresas reclamam da falta de talentos preparados, muitos profissionais continuam presos a modelos antigos de formação e produtividade. Há uma geração inteira que aprendeu a trabalhar executando tarefas. O problema é que o mundo começa a valorizar quem resolve problemas.
Como empregador, percebo diariamente que as empresas não estão necessariamente procurando pessoas que saibam “mais ferramentas”. Elas procuram pessoas que consigam produzir mais valor com menos estrutura, mais autonomia e maior capacidade de adaptação. E a IA acelera esse movimento.
Hoje, um profissional mediano com inteligência artificial produz mais do que pequenas equipes produziam há poucos anos. Isso inevitavelmente reduz a necessidade de estruturas infladas. Mas também cria espaço para profissionais muito mais qualificados, estratégicos e versáteis.
Por isso, talvez a discussão correta não seja “a IA vai roubar empregos?”, mas sim: quais profissionais continuarão indispensáveis em um mercado no qual a execução virou commodity? A resposta provavelmente está menos na tecnologia e mais na capacidade humana de interpretar contexto, construir relações, tomar decisões complexas e gerar confiança.
Porque, no fim, empresas continuam sendo feitas de pessoas para pessoas. E nenhuma inteligência artificial, pelo menos até agora, conseguiu substituir completamente isso.
*Bruno Borgonovo é sócio-fundador da BRW Suprimentos.

